sábado, 13 de janeiro de 2018

Três Santos que Inspiram Intensa Devoção...

São Paulo, São Francisco, São Jorge...

   São Paulo

   Foi sem dúvida o mais importante líder do Cristianismo primitivo.
      Nascido em Tarso, na Turquia, ficou conhecido como Paulo de Tarso segundo o costume antigo de atribuir-se a alguém como sobrenome o local de seu nascimento. Chamavam-no também de Saulo. Sendo de família abastada comprou a cidadania romana o que dava à alguém na época, privilégios.
    Transferiu-se depois a Jerusalém onde tornou-se um “doutor em leis” trabalhando para o Sinédrio da cidade.
   Era um erudito, grande conhecedor da cultura grega, a mais elitizada que havia, falando fluentemente o hebraico além do grego. Grande escritor, suas cartas aparecem com destaque no Novo Testamento.
São Paulo, um doutor em leis...

    Com o beneplácito do sumo sacerdote do grande Templo, passa a perseguir os cristãos tão logo é iniciada a pregação de Jesus, vendo neste um simples impostor como tantos que ali apareciam pretendendo ser o Messias esperado.
   Estevão, um diácono, grande pregador que difundia a palavra do Cristo, foi um alvo constante de sua perseguição, sendo por fim morto por apedrejamento, por ordens de Paulo. È considerado então o primeiro mártir do Cristianismo.
   Paulo levou depois suas perseguições de casa em casa buscando prender adeptos da nova crença. Porém, iria acontecer com ele a surpreendente conversão e iluminação súbita quando foi encarregado pelo Sinédrio de levar sua fúria contra os cristãos em Damasco, na Síria. Dá-se ali o grande e inesquecível milagre cristão: Seu encontro com Jesus trinta e poucos anos após a morte deste.
  Cercado de uma luz fulgurante lhe aparece o Cristo a lhe perguntar: Saulo, por que me persegues?  Envolvido nestas simples palavras e naquela luz (que o deixou sem visão durante dias) tornou-se ali o seu maior propagador. É Lucas quem no ”Ato dos Apóstolos” conta esta belíssima conversão de Paulo.


O encontro de São Paulo com a Luz do Cristo.

    Fez três anos de solidão e meditações sobre os seus muitos erros e percorre depois inúmeros locais como Chipre, Macedônia, Atenas, Corinto e muitos outros.
   Com sua erudição, foi brilhante quando pregou na Acrópole de Atenas, sendo esta a cidade mais importante da época, centro de conceituada cultura.
   Outra de suas mais produtivas palestras ele a fez em Corinto. Corinto era então a sede de uma Igreja cristã que se considerava superior aos outros setores. Os líderes Coríntios eram demasiadamente orgulhosos e chamavam a si mesmos de “Os santos de Corinto”. Paulo lhes ensinou a humildade e em uma de suas cartas os exorta a cultiva-la e a lembrarem-se dos pobres.
   Não fosse o teor universalista das pregações de Paulo, hoje o Cristianismo seria talvez apenas uma igreja local circunscrita à Jerusalém. Entrou varias vezes em divergência com os apóstolos judeus porque estes exigiam a todos que queriam seguir o Cristo que se circuncisassem, o que os impedia de segui-Lo.
   Paulo é chamado “O Apóstolo dos gentios” (palavra hebraica que significa não-judeu, não-israelita). Levava ele a mensagem cristã, sobretudo às populações pagãs, principalmente à Grécia peninsular e à atual Turquia, enfim, a todos que estivessem carentes e sedentos das palavras cheias de misericórdia do Cristo.
   Para os historiadores apaixonados pela bela história do Cristianismo, apesar dos apóstolos que conviveram com o Cristo terem percorrido também extensos espaço em prol de Sua causa, o universalista Paulo de Tarso foi, na realidade, aquele que lhe deu a extensão que o credo cristão hoje possui.

         São Francisco

   Atributos diversos o caracterizam: Despojamento, Persistência, Identidade à natureza, Coragem, Amor. É “O Trovador de Deus”
   Despojamento: Quando o jovem Francesco pôs-se nu em praça pública, na pequenina vila italiana de Assis, não demonstrava apenas a revolta contra o luxo caseiro e de comerciantes e mercadores que exploravam uma cidade repleta de mendigos. Não tratava-se apenas de um ímpeto juvenil, mas já prognosticava a vida despojada de bens que escolheria, à renúncia a confortos supérfluos em que sempre viveria. Criaria uma Ordem cujos irmãos itinerantes não contariam nem com uma cama certa aonde repousarem.
   Persistência: Mostrou-a quando tentou sensibilizar o papa Inocêncio III com as regras Franciscanas que elaborara. Penou dias após dias de espera, pois tendo diante de si um jovem em roupas rotas, o pontífice lhe deu pouco crédito. Só pela insistência de um cardeal seduzido pela pureza de Francesco, acedeu em revê-lo. Mas com ressalvas de que tais regras eram demasiadas rigorosas para que alguém as aceitasse. Finalmente, após uma avaliação de vários cardeais, a personalidade verdadeira e carismática de Francesco acabou vencendo.

São Francisco com seu frades itinerantes.

    Amor à Natureza: Deixo-o bem explicito em seu magnífico poema “Cântico das Criaturas”. Nele, louva “o irmão sol, a irmã lua, a irmã água, o irmão vento, os frutos, as flores, as ervas,” e por fim atraia a seu redor os pássaros.
   Coragem: Demonstrou-a quando numa época em que Cristãos e Islâmicos digladiavam-se (estávamos no século XIII), dirigiu-se ao Marrocos conduzido por um ideal de obter paz. Ali, foi ao encontro do grande sultão inimigo Al Kamel pelo que lhe foi atribuído o título de “O Louco de Deus”.
   O sultão impressionou-se com a sua coragem  e desejoso já também de um acordo, ofereceu-lhe presentes ricos ,o que ele logo recusou, fiel que era à sua renúncia à riquezas ,o que mais surpreendeu o sultão, acostumado à voracidade dos cristãos que haviam pilhado as riquezas de Constantinopla numa desmedida avidez.
   Al Kamel acabou por lhe conceder escolta para que voltasse sem perigos ao acampamento cristão. Após alguns anos na Terra Santa, Francisco volta à Itália em grande tristeza, pois seus esforços foram inúteis, a guerra entre os dois lados continuariam. Também por ter observado o comportamento demasiado cruel daqueles que se diziam seguidores do Cristo.
   Sua tristeza depois aumentaria, ao voltar à sua terra depois daqueles anos ausente, os seus frades itinerantes, pela tanta prática que tinham de andar pelos interiores, haviam sido aproveitados para denunciar ao braço secular da Inquisição possíveis “Infiéis” Islâmicos.
   Amor: Mostrou-o na sua convivência com os atingidos pela lepra, doença que muito se alastrava na época. Levando consolo, sua presença alegre e poética era inestimável para aqueles excluídos e renegados por sua sociedade e muitos até por suas famílias.
 “O Trovador de Deus”: Por viver sua infância e juventude entre Assis e Provence, na França, (de onde lhe veio o nome de Francesco, embora se chamasse Giovanni) herdou a poética lírica de seus trovadores. Porém, mais tarde, trocaria as canções de seus menestréis que louvavam o amor sensual e a atração feminina pelo novo entusiasmo que o tomou: A busca da espiritualidade, a busca de Deus.

              São Jorge

      Podemos considera-lo o santo da religiosidade popular.
    Em casebres humildes encontramos nas paredes em gravuras e quadrinhos toscos sua figura montada em cavalo, matando um aterrorizante dragão. É o modo encontrado de afugentar o mal que possa entrar naqueles lares.
    É o grande guerreiro nascido na Capadócia, região da Turquia, no terceiro século pós Cristo. Foi soldado do imperador romano Diocleciano, passando a ser torturado por sua adesão ao Cristianismo.

São Jorge enfrentando o dragão.

   Sua vida é, contudo lendária, mas apesar da Igreja atribuir pouca veracidade histórica à sua vida, não julgando obrigatório o seu culto, na Inglaterra seu nome foi dado a príncipes que seriam reis e continua sendo ali o seu patrono protetor. Isto desde o Séc. XIV quando foi criada a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, também chamada de Jarreteira.
   Conta-se que em suas andanças como militar que era, chega a uma cidade assolada pela presença de um dragão. Após o recurso de oferecer a este ovelhas para matar sua voracidade tendo sido todas elas eliminadas, ofereceram-lhe jovens, e foi justamente quando iria ser sacrificada a filha do grande senhor da cidade, que surge Jorge que a salva enfrentando o dragão, matando-o.
   Naturalmente que esta lenda é bastante fantasiosa, mas o que importa aos fiéis de Jorge é o conteúdo simbólico que ela contém: O mal sendo extirpado. O simbolismo justifica o mito e o faz inesquecível. Por ele, os cristãos o identificam também ao Arcanjo Miguel, guerreiro príncipe da legião celeste, que empunhando uma espada mata um dragão. Atribuem a ambos o mesmo status de salvador.
Orixá Ogum no Camdomblé!

   No Brasil, a Afro brasileira lhe faz um sincretismo com o Orixá Ogum, este também um guerreiro protetor dos militares e combatentes. Seus cultos se estendem um mesclado ao outro nos Estados onde Umbanda e Candomblé são mais fortes como Rio de Janeiro, Bahia e Minas.

   Ter sido decapitado por querer afastar dos cristãos o mal, faz de São Jorge realmente uma figura relevante no imaginário popular.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Teseu

     Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas, já desde jovem mostrou-se um herói. Lutou contra as mulheres Amazonas que invadiram Atenas e vencendo-as recebeu como prêmio uma das Amazonas, Antíopa, com quem teve um filho Hipólito. Mais tarde, numa luta entre Atenas e Creta, onde reinava o rei Minos, este saiu vencedor e então exigiu para retirar as suas tropas de Atenas, que esta enviasse de 9 em 9 anos à Creta sete rapazes e sete moças para irem lutar contra o monstro Minotauro (metade homem, metade touro) que ele encerrara dentro da fortaleza de Creta.
     Teseu então se prontificou a ir com os 14 jovens tentar matar o Minotauro. A chegada até o subterrâneo onde se encontrava o monstro era um imenso labirinto, nos quais muitos se perdiam. Chegando à Creta, a filha do rei Minos de nome Ariadne se apaixonou por Teseu. Então, lhe dá um novelo de lã para que ele o prendesse à entrada do labirinto e o fosse desenrolando e não perder-se na volta, caso matasse o monstro.
Teseu lutando contra o Minotauro.
   Este fio de lã ficou conhecido como “O Fio de Ariadne” que nos diz que só o amor é o fio que nos possibilita matar os instintos animalescos que possuímos. Vênus, deusa do amor, foi quem o ajudou fazendo com que Ariadne se apaixonasse por ele. Teseu prometeu então a deusa fazer de Ariadne sua esposa e leva-la com ele para Atenas, para livrar-se da tirania do seu pai Minos.
     No Mito, os labirintos representam os atalhos em que nos desviamos e as dificuldades que encontramos para eliminar as nossas maldades.
    Após matar o Minotauro, Teseu deixou Creta levando Ariadne e também sua irmã Freda. Quando Teseu saíra de Atenas, seus barcos saíram com velas negras, mas dissera a seu pai Egeu que se matasse o Minotauro, poria velas brancas em seus barcos em sua chegada, em sinal de alegria.
    Ao passarem de volta à Atenas pela ilha de Naxo, pararam para repousar e Ariadne deitou-se e adormeceu Teseu esquecido do amor que ela lhe dera ,partiu apenas com Freda, deixando Ariadne ali, abandonada. Porém, ao amor não se deve ofender, pois Vênus, deusa do amor, isto não perdoa e ali irá então ter início os sofrimentos de Teseu.
     Para começar, ele se esquece de trocar as velas negras de seus barcos pelas brancas. Seu pai, o rei Egeu, que o esperava sobre os rochedos da Acrópole de Atenas, vendo as velas negras, imaginando que seu filho havia morrido, se jogou ao mar, que passou a se chamar desde então: Mar Egeu.
     Teseu tornou-se rei de Atenas e apaixona-se por Freda, irmã de Ariadne (por uma astúcia de Vênus).  Ele  havia escolhido entre o amor e o ódio e isto lhe foi uma fatalidade.  Aqui, o mito vai nos mostrar que a má escolha de Teseu o fez trocar um amor benéfico, o de Ariadne, pela sedução da perversa Freda que o arrastará a um mau destino. Freda é a mulher cujo ódio é muito exaltado em peças teatrais.

Ariadne abandonada.

    Depois de casada, Freda se apaixona por seu enteado Hipólito ,o filho de Teseu com a Amazona Antíopa, filho que Teseu muito amava. Ela declara ao enteado a sua paixão desenfreada e ele, querendo ser leal ao pai, a repele. Desesperada, ela se enforca mas antes deixa uma carta a Teseu. Nela, dizia que se matou porque o rapaz quis seduzi-la e estupra-la enquanto Teseu viajava. Chegou até a rasgar o dossel da cama do casal simulando a violência com que Hipólito quis entrar em sua cama .
     Para vingar a sua honra, Teseu teria que matar o filho., mas ele não teve coragem. Pediu então a Netuno que lhe desse um castigo. Quando Hipólito passava com uma carruagem, junto ao mar, Netuno fez sair do mar um monstro marinho que espantou os cavalos. Hipólito, porém, ficou com os pés presos nas rédeas e foi atirado contra os rochedos.
    Contudo, a deusa Diana revelou a Teseu toda a farsa de Freda e este, desesperado, com o filho agonizante nos braços, lhe pede perdão. Uma autêntica tragédia grega, muito aproveitada pelo teatro.
    Teseu foi depois um ótimo rei de Atenas e depois de sua morte, segundo os atenienses antigos, seu fantasma sempre aparecia nas batalhas em favor de Atenas. (os gregos acreditavam num duplo que transcendia a morte, chamado Eidolon ).
    Morreu porque quando já estava velho e cansado, foi morar na ilha de Ciros, e lá o rei da ilha, temendo a sua fama de grande guerreiro, com medo que ele tomasse a ilha, o atirou de um penhasco. 

domingo, 19 de novembro de 2017

Reflexões Sobre o Pós–Morte

E a “Percepção do Vazio” Budista

  Na ”Percepção do Vazio” budista, já negamos que todos os nossos comportamentos humanos sejam inerentes ao nosso Eu Real. São eles dependentes e compartilhados com tudo o que convivemos e recebemos pela cultura e cenário humano. Então, será no Pós–morte, livres de tais influências, que nossas consciências emocionais e mentais mais evoluirão.             A maioria das pessoas espiritualistas com quem contato, acham que, ao morrermos, acordaremos em outro mundo com elementos que o estruturam semelhantes aos nossos, como casas, árvores, ambientes, enfim a tudo com que contamos neste nosso mundo manifestado, em outro local, elementos às vezes até idealizados em aparências muito mais aprimorados, quando somos mais evoluídos.
   Porém, no meu entender, não iremos viver num mundo novo no ”Pós-morte”, mas sim, em consciências emocional e mental muito mais priorizadas e ativas. Explico-me:
Mestre Kutumi, grande instrutor
e iniciador.
   Contamos com quatro consciências: a física, a emocional, a mental, a espiritual. Para vivenciarmos experiências, testes, em nossa consciência física, necessitamos de elementos materiais, aqueles que estruturam este nosso mundo. Despojados de nossos sentidos físicos, não mais os necessitaremos. Não veremos mais as coisas por meio de percepções sensoriais, mas sim por um prisma apenas emocional ou mental.
   A morte para mim é um grande Sono. Um Sono onde sonhamos. O que é sonhar quando estamos no período do Pós-morte?
   Enquanto os sonhos, ao dormirmos neste mundo, são apenas lembranças emocionais e mentais das experiências que vivemos neste cenário físico que nos foi dado nesta e em outras vidas passadas, o “Sonho” do Pós-morte é uma “Avaliação”, um “Ajuizamento” que faremos com nossas consciências emocional e mental (únicas com as quais então contaremos).
   Com esta “Avaliação” faremos uma intensa evolução, pois, com estas nossas duas consciências, iremos reavaliar nossas reações a tudo o que vivemos aqui exatamente neste nosso mundo físico, através de imagens retidas nas duas, e levadas através da “morte”.
   As conclusões de nossas “Avaliações” do Pós-morte, serão depois alçadas, à nossa consciência espiritual, nosso Eu Real. Assim evoluímos.  Evoluímos também ao enviar-lhe belas imagens idealizadas por nossa consciência mental para um futuro mais perfeito para nós, quando as idealizações são feitas no período da chamada “segunda morte” (passagem a planejamentos mentais).
   As imagens retidas em nossas consciências emocional e mental que transcendem ao mundo físico é o que chamo de “matéria sutil” e não uma referência à matéria que estruturaria os elementos de um novo local para vivermos no Pós–morte com muitos asseveram.
   No Pós-morte nos reencontramos com aqueles falecidos a quem aqui amamos? Certamente.  O amor é um elo unificador que transpassa todo o nosso evoluir. Eles estarão inseridos nos “Sonhos” de nossas Avaliações emocionais e mentais do nosso Pós-morte. Veremos todos nossos amados, sentindo neste reencontro uma alegria muito maior do que sentíamos quando estávamos junto a eles fisicamente. Será uma alegria fortemente emocional, sem qualquer influência ou circunstância física que às vezes nos separavam deles neste mundo material.
Imagem em relevo de Kuan Yin,
no Monte Jiuhua, China.
   O intercâmbio entre os desencarnados que estão em consciências sutis e os encarnados é possível?  Certamente. Abolidas interpretações e fantasias errôneas que podemos fazer a este respeito, creio que a morte não rompe relacionamentos emocionais e mentais. Princípios vibracionais e telepáticos unem sempre todos os seres em evolução.
   Só não é louvável perturbarmos o momento de reavaliação a que os desencarnados se dedicam, que é intenso. Nem tampouco, perturba-los quando, após passarem pela “Segunda morte”, repousarem por um longo período em paz e inatividade, até que a energia ativadora que os orientais chamam de “Trichna”, que nos faz também acordar a cada manhã para um novo dia, os levar ao processo de um novo encarne no mundo físico, para passar provas e testes. Fazemos, enfim, uma imitação perfeita à nossa natureza ambiental que repousa e floresce, repousa e floresce alternadamente.
   Quando necessitamos de ajudas, intuições e sugestões o desejável é que recorramos a mestres iluminados, isto é, para aqueles que já tendo vencido seus carmas, cumprem a função de auxiliar aos que ainda não os venceram. Também aos grandes seres da Compaixão, aos Bodhisattwas que levados por ela, estão sempre prontos a nos acudir e nos ensinar.
    No Pós-morte teremos, enfim, uma grande oportunidade de vencermos o que o Budismo diz ser os nossos dois grandes empecilhos no mundo manifestado: A não percepção da Impermanências das coisas materiais, e a não percepção do Vazio.

sábado, 23 de setembro de 2017

Um Pouco de Ericeira e de Portugal


Mosteiro dos Jerônimos em Lisboa, Portugal.
Do Brasil vim à Portugal, berço de meus avós. Nele, cheguei à Ericeira cidade à quarenta e dois quilômetros de Lisboa, para ter um encontro familiar e depois naturalmente conhece-la.
   Sobre o encontro, a alegria que senti foi destas que não se consegue narrar, apenas vive-la intensamente.
   Quanto à Ericeira, o primeiro impacto me ocorreu por conta da total claridade e alvura de seu ambiente . Seus blocos de construções, que não atingem mais do que quatro andares, quase todos são pintados de branco. Apenas o amarelo e o azul de suas janelas lhe dão o contrastante toque de cor. Surpreendeu-me seus telhados ,todos parecendo novos como se fuligens e fumaças ,nunca os atingissem.
   É verão e a natureza nos oferece a beleza de muitas árvores de espirradeira e bougainvillias. Porém, é sobretudo o mar que reina soberano em Ericeira. Mar límpido e transparente que traz ondas gigantescas também alvas a se arrebentarem, levantando-se às alturas sobre penhascos São estas ondas que fazem o encanto dos jovens que nelas treinam para depois exibirem suas habilidades de surfistas aqui mesmo em seus torneios.
   Lembrei-me prontamente de meu neto Gabriel, que ama tanto o mar e apreciará estar também um dia sobre elas.
   O Centro de Ericeira, a que chamam “Vila”, faz o entusiasmo de qualquer turista. Nele, não faltam praças e barezinhos onde os Ericeirenses costumam reunir-se à tardinha para “jogarem conversa fora” entre si e tomarem seu costumeiro lanche da tarde, este um hábito generalizado que me fez surpresa de terem ainda fome para jantarem dali a umas horas.
   Aliás o item “alimentação” é digno de ser mencionado em todo Portugal. Refeições são servidas com fartura em qualquer restaurante (para mim foi sempre difícil comer uma porção individual sozinha), são sempre regadas à azeite, que sempre é dos melhores.
   Lembremos que Portugal é um grande plantador de oliveiras, desde que foram introduzidas aqui pelos mouros no séc. VIII. Na Idade média já o azeite de oliva era tão abundante que o usavam até para iluminar cidades.
   De Norte à Sul, De Trás-os-Montes até o Algarve ,passando pelas Beiras (litoral e interior), Estremadura e Alentejo, encontramos seus grandes plantios.
   A Mitologia nos conta a respeito desta árvore: Que a deusa Palas Atenas passou a ser uma divindade agrícola, quando ofereceu a recém fundada cidade de Atenas a primeira oliveira. Dela, os gregos comiam seus frutos e a deusa lhes ensinou depois a tirar deles muito óleo, com que preparavam o alimento e iluminavam suas casas.
Plantação de oliveiras em Portugal.

  Enquanto uma parte da família foi à Lisboa ,e por lá estavam admirando a suntuosidade do “Convento dos Jerônimos” a secular Torre de Belém ,e o magnífico monumento aos descobrimentos, onde aparecem enaltecidos com justiça entre mais de trinta personagens, navegadores como D. Henrique , Cabral, Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Fernando Magalhães e muitas outras personagens do medievo português, eu e Vania fomos ao centro de Ericeira.
    Lá apreciamos seu prato mais típico: o bacalhau. Em sua maioria ele é originário da Noruega.  “Porém, meu neto Daniel, que já está há muito tempo em Portugal, e por tanto amar este país já se tornou ,como dizemos no Brasil , um bairrista”, me afirmou que a melhor técnica de preparar o bacalhau é mesmo a portuguesa.
   Enquanto comíamos nos puseram à mesa uma irresistível cesta de pães. Isto fez minha memória regredir à minha infância no Rio de janeiro das décadas de trinta e quarenta. Habitado então em sua maioria por descendentes de portugueses, a maior habilidade de seus comerciantes era, sem dúvida, a feitura dos pães, vendidos sempre em padarias numa época em que os super mercados inexistiam. Eram entregues também à domicílio, em cestas cobertas por panos muito alvos.

Vinhedos à margem do rio Douro...

Naturalmente que ao chegarmos á Portugal sempre estamos ávidos por provar o seu apreciado vinho. Afinal, vir a este país e não beber seu vinho é como ir à Roma e não ver o Papa. Hoje regiões como o Douro, Alentejo, Setúbal, Minho e muitas outras são grandes produtoras.
   A Grécia antiga nos legou o mito de Dionísio, o deus do vinho, que sempre é bom ser lembrado, principalmente se uma apaixonada por Mitologia como eu o está saboreando: 
   Dionísio era filho bastardo de Zeus, Então, Hera esposa de Zeus, o odiava. Quando ele se fez rapaz, ela o exilou para a longínqua Arábia. Foi lá, que andando por uma mata, encontrou a raiz de uma plantinha desconhecida que, ao crescer, lhe mostrou a uva. Fez dela uma bebida que o iria tornar famoso. Por isso se diz que a uva é originária da Arábia.
   Dionísio entusiasmou-se tanto com aquela deliciosa bebida que passou a toma-la em demasia. Ela o enlouquecia, o fazia perder a cabeça. Começou a segui-lo pessoas que comportavam-se descontroladamente. Fez então um cortejo de Sátiros e Centauros, seres metade homem, metade animal. Sendo ele um homem muito belo, atraia mulheres participantes de bacanais que chamavam-se então “As bacantes”. Neste cortejo o chamavam de “Baco”.
   Logo porém, Dionísio conseguiu tomar vinho na medida certa  e constatou que o vinho trazia inspirações e intuições maravilhosas. Foi ali que ganhou o nome de Dionísio que quer dizer “Duas vezes nascido pois agora realmente se sentia outro homem”. Criou um novo cortejo, onde participavam ninfas e musas inspiradoras de música e poesias. A fama do vinho espalhou-se tanto, que passou a ser usado em liturgias, onde religiões, através dele, chegavam a atrair  o Divino.
   Foi por estas energias inspiradoras do belo e do espiritual, que Hera perdoou o filho bastardo de seu marido e convidou-o a morar no Olimpo, fazendo dele um deus imortal. Como tinha uma personalidade dupla pois era filho de um deus com uma mulher , passou a ser amado  por toda a Grécia, o amava mortais e imortais .
    Além do vinho, cheguei a provar aqui também um licor, mais alcoólico que ele. Bebida muito doce, feita do bagaço da uva , chamada Jeropiga. Soube que esta bebida é produzida também na Ilha dos Marinheiros no Rio grande do sul, Brasil. Em Portugal é bastante popular  também o licor chamado Ginja.                     .
A nos servirem no restaurante, estavam dois rapazes brasileiros .Estes como acontece com muitos jovens  durante a crise política  e social que vivemos atualmente no Brasil, que afeta principalmente os empregos, eles também buscavam ter melhor sorte em Portugal.
 
Vista panorâmica da cidade de Ericeira,
praia e rochedos...

Após o almoço, fui procurar livros  e encontrei algo que  me encantou : ”A Carta de Pero Vaz Caminha”. É nela que se encontra a melhor narrativa  do dia do descobrimento do Brasil, nos mostrando a inocência, a passividade  e a confiança ingênua com que nossos índios se mostraram nus e receberam desconhecidos. Embora os dois grupos se expressassem em línguas diferentes, conseguiram se intender para realizarem as suas trocas. Aliás, em referência à expressões linguísticas, hoje quando já se passaram mais de 500 anos destes fatos, e falamos nós, brasileiros, a mesma língua daqueles que nos colonizaram, inúmeras palavras nossas  já são ditas e escritas de maneira diversa do linguajar de Portugal.
   Assim encontrei aqui em Ericeira: Nosso “Estar pronto” por “Despachar", "Crianças”  por “Miúdos“, Nosso “Banheiro” por “Sala de Banho”, Nossa “Calcinha “ por “Cueca”, nosso “Pedágio“ por ”Postagem”, e tantas outras.
   Porém, nada disso, perturba o nosso entendimento e quando acontece crises de desemprego como a que enfrentamos no Brasil agora, jovens humildes e garçons, como estes que citei, vêm buscar na pátria mãe sua recuperação.
   Não resisti também às lojas de produtos regionais  e fui logo procurar objetos, fossem toalhas, cerâmicas, ou tudo o mais que com que pudesse  depois, no Brasil, exibir o grande símbolo de Portugal : o Galo. 
  Aqui se sabe da lenda do rapaz que acusado de um crime , mas inocente, teria afirmado que um galo, que estava sendo comido por um bispo,  iria levantar-se do prato e cantar para provar sua inocência, o que de fato teria acontecido.  Eu, como estudiosa da História das Religiões, lembrei-me também do que diz o Cristianismo sobre a figura do galo sobre as igrejas cristãs:
 Ensinou-nos São Marcos em seu Evangelho que o galo é o grande vigilante. Isto é, enquanto dormimos (também espiritualmente), o galo  nos vela e depois  canta três vezes para nos acordar (também espiritualmente) .Diz São Marcos ainda isto : “Sê também  vós um vigilante, porque nunca sabeis a hora que o vosso mestre vem vos chamar. Se esta tarde ,se é esta noite, ou na madrugada quando o galo cantar”.
   Portugal foi o país que mais aceitou esta advertência de São Marcos. Colocou em muitas torres de capelas e igrejas a figura do galo,  representando o chamamento do Cristo para nós, nos convidando a um renascimento interior.
   Porém, os amantes de Mitologia se lembram que também já na Grécia antiga o galo simbolizava a chegada o deus do sol, Apolo, anunciando a  ressurreição de um novo dia e uma ressurreição íntima para nós.

Galo, símbolo de Portugal.

   Fomos depois à praia dos pescadores.  Soube  ali que o grande padroeiro de Ericeira  é São Pedro Pescador.  Vejo justiça nesta escolha pois antes da época áurea  de Portugal, aquela dos descobrimentos marítimos, Ericeira vivera grande penúria, contando apenas com o peixe, principalmente a sardinha, muito abundante nas costas portuguesas, para sua sobrevivência. Porém, os livros que li sobre Ericeira falavam pouco sobre esta época de penúria, os historiadores preferindo falar da cidade a partir  da revolta para a republica. Falam com minúcias sobre os conflitos violentos causadores de muitas mortes acontecendo em Lisboa, a bem de mudarem o regime vigente. Detalham a saída súbita e rápida de Mafra por D. Manuel II, ultimo  rei de Portugal. Ali estava o rei em seu castelo, belíssimo ,hoje muito visitado por turistas, onde todos os anos ia caçar. Urgia que saísse rápido em fuga para um exílio. Sairia pelo porto de Ericeira, na época um dos melhores da costa portuguesa. Foi esta saída súbita da família real que introduziu Ericeira  definitivamente nos anais da história de Portugal.
   Hoje ali está na Praia dos Pescadores um marco desta sua saída em 1910 para o exílio na Inglaterra. Lembremos que desde o século que havia passado, quando Napoleão invadira Portugal , já fora a Inglaterra que escoltara os navios que levariam a família real portuguesa para sua chegada ao Brasil  em 1808 , e os dois países permaneciam unidos.
                       
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   Sempre soube que o português, em sua maioria, era muito afeiçoado à família. Observei isto desde criança na convivência com meu avô, originário de  Trás- os - Montes, e vários de seus patrícios. Indo para o Brasil ,casou-se com a descendente de uma índia e teve com ela 12 filhos, mas a viu morrer apenas com 33 anos. Viúvo, dedicou-se inteiramente aos filhos. Uma de suas filhas já com quinze anos, cuidava dos irmãos enquanto meu avô saía à trabalhar, mas todos o esperavam ansiosos para receber os seus carinhos, porque todos sabiam que ele vinha direto do trabalho à casa, ansioso também por abraça-los. Meu avô dizia que um pai de filhos menores nunca devia deixa-los ir para cama sem a presença dele.
   Sua casa foi depois o abrigo garantido dos descendentes que seus filhos lhe deram Quando perdeu uma de suas filhas ,passou a criar os seus dois netos com o mesmo desvelo. Eu, como filha de um militar que vivia de uma cidade à outra, a bem de estudar, vivi com meu avô a maioria de minha infância .Enfim ,fez de sua casa o refúgio seguro para todos nós.  Legou para nossa família atual a amorosidade e o amor às crianças que ainda é muito forte em nós.
   Hoje aqui em Ericeira conheci um casal que me confirmou esta tendência familiar dos portugueses.  Achei-os na família com a qual minha neta Vanessa veio a se relacionar pelo casamento. A maneira de externarem amor aos filhos, nora e netos, é muito parecida  a apresentada pelo meu avô. Meu avô fora agricultor, em Trás- os – Montes e este casal também lida com plantios.  Como a comparação que fiz foi entre pessoas que se envolvem com o campo, não sei precisar se esse extremado amor à família é peculiar aqui apenas ao homem do campo. Se os habitantes de zonas urbanas, das grandes cidades portuguesas, guardam a mesma característica.

Trás os Montes, principal origem dos emigrantes
portugueses no Brasil.

   Uma das maiores características não só de Ericeira mas também de Portugal é a sua profunda religiosidade. Como todos os povos, dentro de uma modernidade que se abre a todos os credos, conta hoje em seu meio com a Maçonaria, Espiritismo, Protestantismo, e até o mais novo dos cultos, o Pentecostalismo. Porém, como tradição que carrega fortemente é o Cristianismo que ainda domina. As doutrinas orientais como Budismo e Bramanismo são pouco encontradas , segundo ouvi alguém ,ligado a elas, se queixar de  sentir-se só nestas suas preferências.
   Na idade Média, pelos séculos XV e XVI  o Cristianismo em Portugal, como em todos os países da Europa, passava por um período de  decadência ética e moral. Contudo, a vida monástica era numerosa, contando com muitos  conventos e mosteiros.
   Um dos mais lindos, sem dúvida  era o dos Jerônimos  em Lisboa . Estes frades, originários da Itália, muito contemplativos, com sua retidão e idealismo, tentavam levar a Igreja a recuperar-se através de uma maior espiritualidade, sem êxito ,porém.
   Hoje, este mosteiro  nos exibe a beleza deslumbrante do seu Claustro, e a arte de azulejaria do seu refeitório expondo dentro de uma maravilhosa técnica cenas do cotidiano medieval.
   Apesar do Cristianismo sempre ter proibido adivinhações, feitiçarias e superstições, muitos portugueses são supersticiosos. Assim nos afirma o escritor lisboeta Miguel Born  em seu belo livro “Sintra Lendária”.
Nele, é descrito  o pavor que os de Sintra sentem pelo seu ”Castelo dos Mouros”. Acreditam que ali esteja enterrado um rei mouro com os seus tesouros guardados por espíritos maléficos. Assim, poucos se aventuram a ir lá, e até escavações nos locais são prejudicadas. Além deste, outros exemplos são apresentados.
   O imaginário popular brasileiro quando pensa na religiosidade da mulher portuguesa, não se libertou ainda de quadros antigos  e ainda vê a sua imagem numa geração passada, como a de uma mulher vestida em roupas  muito discretas, saia comprida, um véu escuro a lhe envolver a cabeça, seguindo devotamente uma procissão. Também na senhora muito idosa que guarda por meses o luto pelo marido, em sua roupagem dos pés acima completamente negra. (Vi uma apenas vestida ainda assim, em Ericeira.)
   Sobre a Fé, meu avô português sempre que nos via rezando, repetia : “Mais vale a Fé que o pau da barca” e justificava sua frase, contando esta história:
   Um rapaz português tinha uma mãe muito devota. Um dia, ele lhe participou que iria à Terra Santa, Jerusalém. Então, ela lhe pediu que lhe trouxesse de lá um pedaço do Lenho Santo, isto é, da cruz de Jesus. Só que em sua viagem o rapaz passou por Paris, e ali  meteu-se em grandes farras, esquecendo-se completamente da Terra Santa. Lá não foi.
   Voltando à Portugal, veio de navio e entrou depois numa barca que o levaria do navio ao porto de desembarque. Na barca, que era muito velha, notou que a sua murada estava quebrada. Só então lembrou-se do pedido de sua mãe. Não teve dúvidas: Tirou uma lasca de madeira da murada . Já em sua casa , entregou –a à mãe afirmando-lhe que aquele era o pedaço do “Lenho Santo”.
  Ela, tão feliz ficou, que  entronizou aquele pau dentro de uma redoma de vidro e passou diariamente a rezar ante ele.
   O interessante porém desta história, é que sua família vivia muitas dificuldades e problemas e ela, com as suas rezas ante a lasca,  conseguiu resolvê-los todos.
   Então bem razão tinha meu avô quando dizia: “Mais vale a Fé que o pau da barca”.

Mulher nazarena.

Hoje passeei com Vania e Rolim por uma estrada margeando muitas quintas e vinhedos plantados com aquela maneira europeia de fileiras baixas diferentes do plantio de latadas que fazemos no Brasil. Ali, fizemos frente também ao moderno se opondo ao antigo.  Entre   aerogeradores para energia eólica, vimos muitos moinhos cataventos  nos lembrando das velhas fazendas europeias , primeira engenhosidade dos homens para  aproveitar a energia dos ventos.
   Apaixonada por mitologia que sou, recordei-me logo da Odisseia e de Ulisses ,quando os seus marinheiros  soltaram o deus dos ventos Éolo ,que Ulisses havia prendido dentro de um jarro. Soltando-se os ventos jogaram, sem piedade, a embarcação de um lado a outro.

Tourada portuguesa, em 2017.

   Todos os países contaram com manchas que denegriram a sua história. Portugal não foi exceção. Citarei duas: Touradas e Escravidão. Embora não sendo os portugueses tão apaixonados por touradas como os seus vizinhos espanhóis, soube com surpresa, que aqui em algumas regiões, elas ainda são usadas.  Surpreendeu-me que  homens tão sensíveis como os portugueses jamais conseguiram que seus governantes  acabassem definitivamente com esta prática nefasta.  É deprimente imaginar animais mutilados com objetos que mais parecem anzóis de pescaria, a balançarem presos a seus corpos, antes que sejam finalmente sacrificados.
  Porém , mesmo assim, pelo tanto que admirei o meu avô e seus patrícios, guardo dos portugueses  aquela mesma imagem de sensibilidade  e encantadora  simplicidade,  tal como os descreveu Júlio Dantas em seu livro “A Ceia dos Cardeais”. Aquela sua propensão à nostalgia e saudosismo tão expressos em seus fados. Neles parecem sempre estar à espera da solução de um sonho perdido.
   Quanto à escravidão, existiu desde quando os portugueses lutavam contra os mouros, fazendo dos vencidos escravos. Também no intercâmbio com africanos a(em 1500 os próprios Ericeirenses já possuíam escravos). Num largo aqui se encontra o pelourinho onde os negros eram açoitados.
   A escravidão de africanos foi depois estendida até a sua nova colônia ,o Brasil. Ali os negros foram aproveitados como ferreiros e plantadores de cana de açúcar. Mais tarde , para a mineração durante o grande ciclo de ouro do Brasil. Dedicadas mães pretas amamentaram em nosso país muitas crianças brancas. Após a Abolição houve muitos cruzamentos entre brancos e negros o que resultou nos muitos mulatos que temos. Porém, mesmo assim, a escravidão ,com os seus inevitáveis suplícios ,deixou marcas e lembranças que ainda hoje ,quase um século após a libertação escrava, dificulta um perfeito relacionamento entre as duas raças gerando as vezes conflitos.

Azulejos portugueses.

   Não desejo porém terminar este escrito falando em coisas tristes. Lembrarei aqui a arte mais bela dos portugueses: Sua Azulejaria.
   O azulejo é visto em toda parte neste país. Quem introduziu aqui o gosto por esta arte foram os mouros que na Espanha decoravam seus palácios com lindos ladrilhos. São realmente soube cerca de 500  anos desta tradição, pois  em 1560 haviam já olarias em Lisboa que seguiam uma técnica influenciada pelas Faianças italianas.
   Enquanto o Árabe não ilustra esta sua arte com figuras humanas ,devido à proibições do Alcorão, o azulejo português ilustra neles histórias ,  glorificou  com eles seus santos  na época medieval,  cenas religiosas,  e agora costumes atuais também.
   A primeira capela que visitei em Ericeira, a de Santo Antônio, já me encantou pelo seu interior inteiro de Azulejos.
   Vi também muitas casas antigas que traziam em sua fachada um medalhão de azulejo representando a figura de um santo. Me explicaram ser o santo predileto da família que  via nele, o intermediário que iria garantir as bençãos  do Divino para a família.
   Bancos de repouso nas  calçadas de grandes ruas(vi belíssimos), fontes de água com bicas ainda ativas, e lembranças de antigos lavatórios de roupa , naturalmente apenas como lembranças.
   Famílias fazem trabalhos artesanais de azulejos, mas o trabalho industrial desta arte também é primoroso e garante os grandes espaços forrados  de azulejo .
   Ninguém que vem à Portugal poderá sair dele sem ter tido este deslumbramento: a visão dos seus inúmeros azulejos.


Chafariz em Tabuaço - Douro - Portugal.

   Daqui a um dia deixarei esta aprazível Ericeira.  Sempre considerarei minha vinda aqui como uma volta às minhas raízes, embora elas estejam lá no norte, em Trás –os- Montes.
  O azul dos azulejos, somado ao azul que é muito forte aqui do mar, mais as inúmeras aberturas pintadas de azul, fará com que, ao lembrarmos desta região, esta cor irá apresentar-se sempre  como uma predominância em nossas lembranças.
  Aqui revi aqueles por quem meu coração sempre aspira rever: Os que embora afastados de mim fisicamente, sinto sempre presentes em meu viver cotidiano.
   Aqui conheci dois bisnetos, Bernardo e Luiza que junto à Caetano, no Brasil, há poucos anos vieram enriquecer com sua graça infantil nosso grupo familiar.
   Passei novamente pela história deste querido país, Portugal. Vi vestígios de antigos romanos, muçulmanos e cristãos que o colonizaram. Estão nas ruinas do templo de Diana em Évora, no castelo mouro de Sintra, nos sons ainda hoje ouvidos do bairro lisboeta de Alfama e naturalmente em seus inúmeros conventos e mosteiros. Vi ainda  vestígios dos cavalheiros feudais do medievo, muito relembrados em Óbidos.
   Reli aqui a história de suas dinastias; de sua expansão territorial na África; dos passados antagonismos entre Portugal e seus vizinhos espanhóis; de sua expansão marítima (que o ligou definitivamente ao meu próprio país) também de suas desventuras como: As antigas guerras religiosas; os tristes julgamentos da Inquisição; o terrível terremoto de Lisboa em 1755 e a invasão napoleônica.
   Gostaria de completar estes meus ainda muito escassos conhecimentos conhecendo as suas ilhas.
   Agora aqui, na moradia de minha filha, irei à sacada para de lá contemplar mais uma vez o mar soberano de Ericeira.  Dele, quero guardar para sempre em minha mente a majestosa imponência  de suas falésias  e rochedos, assimilar o ritmo de seu movimento cadenciado e constante, assimilar também a pureza de suas espumas alvas, desejando que ao chegar ao Brasil, meus pensares e conclusões se tornem tão abrangentes, profundos e límpidos como a profundeza de suas águas.
Todos os países contaram com manchas que denegriram a sua História . Portugal não foi exceção. Citarei duas: Touradas e Escravidão.
Embora não sendo os seus habitantes tão apaixonados por touradas como os seus vizinhos espanhóis, soube com surpresa, que ainda hoje, em algumas regiões elas ainda são usadas . Surpreendeu-me que homens tão sensíveis, como são os portugueses, não conseguiram ainda que os seus governantes proibissem definitivamente esta prática tão nefasta em todo seu território. Nela, sempre me foi deprimente imaginar animais sendo mutilados com objetos que mais se parecem anzóis de pescaria a balançarem presos em seu corpo, antes de por fim serem sacrificados.
Porém, mesmo assim, pelo tanto que admirei o meu avô e seus patrícios, guardo dos portugueses aquela mesma imagem de extrema sensibilidade e encantadora simplicidade tal como os descreveu Júlio Dantas em sua notável obra “A Ceia dos Cardeais”. Aquela sua propensão à nostalgia , ao saudosismo tão expressos em seus fados (Neles parecem sempre estar à espera  da solução de um sonho perdido).
Quanto à Escravidão, existem desde quando os portugueses lutavam contra os mouros fazendo dos vencidos, escravos. Também do intercâmbio com africanos. Em 1500 os próprios Ericeirenses já possuíam escravos . Num largo, lá está ainda  um pelourinho onde os negros eram açoitados.
A escravidão de africanos foi depois estendida a sua colônia ,o Brasil. Ali os negros ao chegarem foram aproveitados como ferreiros e plantadores de cana de açúcar. Mais tarde, trabalharam na mineração, durante o grande ciclo de ouro do Brasil.
Dedicadas mães pretas amamentaram em nosso pais muitas crianças brancas. Após a Abolição aconteceram muitos cruzamentos entre brancos e negros gerando os mulatos de nosso país. Porém, mesmo assim a escravidão com os seus inevitáveis suplícios deixou marcas e lembranças que ainda hoje quase um século após  a libertação escrava dificulta um perfeito relacionamento entre as duas raças, gerando as vezes conflitos.



Não desejo contudo, terminar este meu escrito com assuntos negativos, quero lembrar aqui a mais linda arte que encontramos em Portugal: A sua Azulejaria.
O azulejo é visto em toda parte neste país. Quem o introduziu foram os  mouros que, na Espanha, decoravam com eles os seus palácios. São realmente já cerca de 500 anos de tradição pois já em Lisboa em meados do século XVI em Lisboa havia  olarias que seguiam uma técnica influenciada pelas Faianças italianas. Enquanto o árabe não coloca em sua arte figuras humanas, por proibição do Alcorão, os azulejos portugueses ilustram belas histórias, também costumes cotidianos, figuras e cenas religiosas.
A primeira capela que visitei em Ericeira já me encantou pelo seu interior feito inteiro em azulejos. Também vi em  pequenas casas antigas, em suas fachadas, medalhões de Azulejo onde figuravam o santo predileto da família como uma proteção a ela.
Bancos de repouso em ruas, fontes feitos nesta arte, são realmente numerosos. Famílias trabalham neles artesanalmente mas também são feitos por meios industriais.
Ninguém que vêm à Portugal  pode sair dele sem um deslumbramento: A visão desta magnífica azulejaria.

Detalhe de azulejo português.

Daqui uns dias deixarei  esta aprazível Ericeira. Sempre considerarei minha vinda aqui, como uma volta às minhas raízes ancestrais, apesar delas estarem lá no norte, precisamente em Trás os Montes.
   O azul dos azulejos, somado ao azul que é muito forte aqui do mar, mais as inúmeras aberturas pintadas de azul, fará com que, ao lembrarmos desta região, esta cor irá apresentar-se sempre  como uma predominância em nossas lembranças. 
   Aqui revi aqueles por quem meu coração sempre aspira rever: Os que embora afastados de mim fisicamente, sinto sempre presentes em meu viver cotidiano. Aqui conheci meus bisnetos Bernardo e Luiza que junto à Caetano, no Brasil, vieram  enriquecer  com sua graça infantil nosso grupo familiar.
  Passei novamente pela história deste querido país, Portugal. Vi nela vestígios de antigos romanos,  muçulmanos, e cristãos que o colonizaram. Estão nas ruínas dos templos de Évora, no castelo mouro de Sintra, nos sons ainda hoje ouvidos no bairro lisboeta de Alfama e naturalmente em seus inúmeros conventos e mosteiros. Vi vestígios dos cavalheiros feudais do Medievo muito relembrados em Óbidos.
Reli aqui a história de suas dinastias; de sua expansão territorial na África; dos passados antagonismos entre Portugal e seus vizinhos espanhóis; de sua expansão marítima que o ligou definitivamente ao meu próprio país. Ainda de suas desventuras como: As antigas guerras religiosas; os tristes julgamentos do tempo da Inquisição; o terrível terremoto de Lisboa em 1755 e a invasão napoleônica.
   Gostaria de completar estes meus ainda muito escassos conhecimentos, visitando as suas ilhas. Agora aqui na moradia de minha filha irei à sacada para de lá mais uma vez o mar soberano de Ericeira.
   Dele, quero guardar para sempre em minha mente a majestosa imponência de suas falésias e rochedos; assimilar i ritmo de seu movimento cadenciado e constante. Assimilar também a pureza de suas espumas alvas, desejando que ao voltar ao Brasil os meus pensares e conclusões se tornem tão abrangentes ,profundos e límpidos como a profundeza de suas águas. 

Milagre na Índia

   Olhos inúteis pelo véu da cegueira, quando virão luzes penetrar-te as pálpebras? Trevas espessas rodeiam-me a existência. Conceda-me, Krishna, homem-Deus, Teu favor, desta vez, agora!
   Sou eu o digno Brâmane que trilha o mesmo caminho cada ano. Olhos opacos, bengala nas mãos, sacola aos ombros. Levo a Ti, Ó Santidade, em Teu templo distante, oferendas, pedras raras, que encaixadas em Teu altar, Te darão mais pompa e dignidade.
Krishna.
   Meus pés sentem o solo tórrido e árido, minha mente, porém está povoada de confortadoras lembranças: Tapetes macios forrando os chãos que piso desde a infância, aconchegantes camas em que meu corpo tem repousado. Minha é a rica vivenda com jardins de fontes murmurantes, quantas vozes servis dentro dela me tem ouvido os comandos! Na verdade bem digna de minha nobre casta de brâmane é esta que tenho levado, No entanto, não me concedestes ainda, Ó doce Krishna, a luz de meus olhos e quanto a quero! Quanto!
   Oferendas já Te levei e muitas! Todas sem qualquer resultado! Mas, entre elas, sem dúvida, a mais preciosa é esta que Te levo agora. Humilde, esperançado, acaricio sob meus dedos safiras, rubis e topázios. Quanto belo ficará Teu altar, Sublime Amado!
   Sentidos diversos, muito mais apurados em mim que no comum dos homens, conduzem-me sem erro pelos caminhos que tantas vezes já passei! Cheiros e sons que percebo neles me são tão familiares!
   Já não sinto o cheiro pútrido da carne secando estendida sobre a choupana dos párias? As chagas apodrecidas da multidão de mendigos me tocando as narinas? A brisa do esterco, da urina de vaca com que o campônio desinfeta a casa, não me faz adivinhar a penúria de suas vidas? Podridão, incenso e aragem sanguinolenta dos tísicos, foram sempre os cheiros que me revelaram os inúmeros mendicantes de meu país.
   Contudo, nada devo eu, de opulenta casta fazer em favor disto. Tudo afinal não acontece por uma lei de reações às ações que eles mesmos plantaram? Segundo as inexoráveis leis do Altíssimo? Por que deixar-me abalar pelos lamentos e súplicas dos párias?  Se mendigos sonham com a liberdade e eu com a visão, que cada um siga o seu caminho, implorando a Tua graça, o Teu perdão.
   Entre a ladainha de tosses, o canto tristíssimo de quem, labutando, limpa fossas e excrementos, sigo eu, inativo e impassível. Em minha alma não pode alojar-se qualquer resíduo de compaixão.
   A noite está pondo já sombras refrescantes sobre a minha Índia, lhe ameniza a quentura, e meu corpo de brâmane necessita um descanso. O corpo do mundo também guarda ainda calor. Sinto-o quando, com a cabeça apoiada na sacola de pedras preciosas, deito-me sobre seu solo.
Sob mim a mãe Terra pulsa em ritmo de coração vívido, concretizando sua trajetória no cosmos, enquanto eu, verme sobre a sua superfície, espero que Tu, Ó imortal Krishna, me mude a sorte.
Krishna e sua flauta.
   Não está sendo fácil firmar o sono, Tenho, ao contrário alerta todos os meus sentidos. Ouço passos que estão ainda muito distantes. Tais passos porém, aproximam-se cautelosamente em direção a mim. Há no ar um cheiro fétido de párias, sussurros...Tenho já a certeza que um bando de salteadores quer roubar-me o carregamento de pedras raras. Preciso cautela, muita cautela para não perdê-lo aqui. Deixarei que mais se aproximem...
   Um dos párias tem já as mãos sob a minha cabeça. Toca-me a dádiva. Agora sim, num gesto repentino, eu lhe agarro o pulso esquálido, com a potência de quem sempre nutriu-se bem, viveu em abastança .Tua oferenda , Ó Senhor Krishna, está em jogo e eu reforço meu grito ,com toda a força da minha devoção a Ti:
   - Que intentas, ó paria amaldiçoado? Queres roubar a oferta que alguém leva para o seu Deus? Além de ofenderes à Krishna, ousas perturbar o sono de um digno brâmane?
   Mantendo o pária preso às minhas mãos, sacudo-o com arrogância. Ele, dobrando o corpo sobre o peso da própria humildade, toca várias vezes a cabeça ao chão e lamenta-se:
   - Ó nobre senhor, deixa que eu apodreça sobre esta terra! Seja eu mesmo tão impuro que nem na hora da morte o fogo purifique meu corpo de intocável! Tão profunda é a agonia de minha vida mísera, que esqueci-me de quanto é transitória! Não me promete o céu de Brahma mais delícias do que a tua carga de joias pode me dar? Seja eu sempre proscrito, ilustre brâmane, para sempre impuro.
  Retendo soluços, o pária vai silenciando-se e eu, Oh! Sublime Krishna, não posso impedir que o peso insignificante de seu braço em confronto com a força do meu próprio corpo me cause um súbito mal estar, que vá transformando-se em piedade e, por fim, num ímpeto de amor por aquele miserável homem, num amor tão fraterno e intenso como jamais senti.
   Minhas mãos se afrouxaram em seus pulsos e minha voz soa com uma suavidade nova, inusitada em mim:
   - Vá embora, intocável, leva contigo esta sacola! Distribui seu conteúdo entre o teu bando. Faça reverter essas joias em conforto para suas vidas execradas! Que o perfume dos lírios substitua em tua cabana o cheiro de urina e das chagas putrefatas! Que, daqui em diante, medites nas delícias do céu de Brahma, com os lábios adoçados pelo sabor de cerejas e damascos! Que sejas tão limpo, sadio e belo como a imagem de um deus! Leva a carga de nosso Senhor Krishna depressa! Leve-a enquanto te lastimo tanto! Vá, corre com ela!

Monte Kailash, onde segundo a mitologia
hindu, moram os deuses.

   Levanto o pária atoleimado e lhe grito: - Corre antes que me passe este instante de piedade, o primeiro em que um amor tão incontrolado me possui assim! Vá!
   Foi-se o pária. Tudo está silencioso neste vale deserto e eu deito-me ao chão com o peito agitado por emoções as mais contrárias. Lágrimas escorrem-me dos olhos inúteis ao lembrar que deixei, Altíssimo Mestre, de prestar-Te a homenagem devida. Teu altar ficará nu de rubis, esmeraldas e topázios. Neguei-Te a oferenda para doa-la a um intocável! Porém Amado, a transferência desta carga de pedras das minhas mãos para as dele, faz também meu ser exultar de leveza e liberdade, como se apenas ela fosse dar para mim um fruto, um rendimento que irá perdurar! Que exultação tão plena foi sentir naquele pária um irmão! Haverá, na verdade algo mais doce, Ó amado, do que poder–se chamar outro homem: ”meu Irmão” ?
   Mesmo que seja eu em seu lugar, agora um proscrito, que mantenhas em trevas irremediáveis os meus olhos... Eu nada quero mais... Meu ser todo vive o momento sublime do amor, da piedade... Está todo em paz.
   Em que alturas supremas andou minha consciência para que assim eu me pacificasse? Agora, porém, repentinamente ela volta a fixar-me em minha condição física! Meus olhos ardem, ardem muito! Tal como se uma chama abrasante estivesse junto a mim. Mas, se trevas rodearam-me sempre e sempre! Que luzes são estas penetrando-me as pálpebras?
   Eu vejo luzes! Vejo! É o milagre! O milagre por tanto tempo esperado! Por fim, Senhor, me agraciaste!
Distingo já no céu de minha Índia miríades e miríades de estrelas!
   O chão até onde enxergo na distância as montanhas, até aonde sumiu correndo o pária, o meu irmão, é um lençol de minúsculos grãos que cintilam sob o luar.  Um mundo de deslumbrante beleza é primeira visão que me estás concedendo, Ó Krishna, ser divinizado!